A imagem nossa de cada dia

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Tive a sorte de assistir a Close-Up, de Abbas Kiarostami, no mesmo período em que lia A Sangue Frio, clássico do jornalismo literário escrito por Truman Capote. Parecia improvável que essas obras fossem semelhantes, porque vindas de lugares e culturas tão diferentes. Mas, sim, tratam do mesmo tema: a importância da autoimagem e de como queremos que o mundo nos enxergue.

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Hitchcock inglês

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O primeiro trabalho de Alfred Hitchcock nos Estados Unidos foi Rebecca, A Mulher Inesquecível, sucesso de público e crítica que faturou o Oscar de Melhor Filme em 1941. Antes de sair da Inglaterra, sua terra natal, porém, Hitchcock já era um diretor de renome. Sua “fase inglesa” não se compara em qualidade aos clássicos americanos dos anos 1950 e 1960, claro. Mas aquele olhar único e diferenciado para os elementos cênicos estava lá desde o começo.

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A novela de ontem e a novela de hoje

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Como principal produto da televisão brasileira, a novela deveria ser mais bem cuidada por quem as cria – emissoras, escritores, diretores. Não digo isso por apreciar e defender a dramaturgia nacional para TV. A reciclagem de temas, recontando o já contado inúmeras vezes, beira o inacreditável. Do texto, não se tira quase nada: desenvolve mal temas amplos e relevantes para a sociedade; foca em tramas que não fazem a narrativa andar; abusa do uso do clichê e da linguagem formal; retrata um país fictício, sem pobres, feios e derrotados. Se ao menos o desastre dos roteiros fosse compensado com uma forma inteligente de se filmar, estariam todos desculpados. Mas não temos nem isso…

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Trapaça (2013), de David O. Russell

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No mundo de Trapaça, a representação é uma constante: o golpista esconde a calvície, o detetive faz cachos em seu cabelo liso pra parecer mais humilde, a amante se passa por aristocrata inglesa pra esquecer a vida indigna que já levou. Isso não significa que o filme trate do poder da imagem, de como a imagem se torna farsa de uma realidade falida. Seria um caminho interessante a percorrer, pois a trama fala justamente disso: corrupção por baixo dos panos, acordo secretos com criminosos etc. Continuar lendo

Top 10 – Martin Scorsese

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Vamos encarar os fatos: Martin Scorsese, aos 71 anos de idade, é um dinossauro do cinema. Seu primeiro longa-metragem, Quem Bate à Minha Porta?, data de 1967, quase quarenta e sete anos atrás. Reconforta perceber, então, que seu espírito se mantém jovem a cada novo filme criado – mais jovem que muito cineasta menino por aí. É possível se encantar com o frescor de suas películas mais recentes quase da mesma forma com que o mundo recebia os trabalhos arrojados de um garoto crescido no Little Italy, em Nova York, enquanto ainda lutava para ter um lugar de destaque em Hollywood durante os anos 1970. Continuar lendo

O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese

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Martin Scorsese está em plena forma. Não faz um filme que pode ser considerado ruim desde Gangues de Nova York, em 2002, e, de lá pra cá, trabalhou com desenvoltura no cinema de gênero (policial, documentário, suspense psicológico, aventura infantil). Dá para contar nos dedos um cineasta que, a esta altura da vida, se dá ao luxo de criar uma obra tão envolta em polêmicas, banida e censurada em um punhado de lugares, como O Lobo de Wall Street. Filmando como menino, fez um dos longas mais mordazes da carreira do alto de seus 71 anos de idade. Continuar lendo