Joseph Losey: cruel observador da realidade

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Estranho Acidente (1967)

Na década de 1950, durante a chamada “caça às bruxas ao comunismo” conduzida nos Estados Unidos pelo senador Joseph McCarthy, existia uma “lista negra” em Hollywood. Quem fosse acusado de ser simpatizante da esquerda política encontrava dificuldades para trabalhar no mercado cinematográfico. O diretor Joseph Losey fazia parte do fatídico grupo. Teve até que se mudar para a Europa pra conseguir filmar com regularidade. Toda a hipocrisia e a falsa moralidade vividas por ele durante o incidente se tornaram temas recorrentes em sua filmografia, produzida principalmente na Inglaterra. O verniz dos bons valores e da normalidade que cobre a sociedade não resiste ao olhar desencantado de Losey.

Seus filmes, aliás, tem muito dos contemporâneos Douglas Sirk e Samuel Fuller: aquilo de mostrar o mundano sem o maquiar. De Sirk, o diretor se apropria da sobriedade e do formato narrativo que transforma o melodrama em algo triste, com sorrisos amarelos; de Fuller, a câmera que alterna entre momentos calmos e agitados.

O drama loseyniano trata da complexa teia de relações pessoais tecida ao nosso redor. Mais cedo ou mais tarde, tudo isso cairá por terra, revelando a verdade por trás das aparências. O que aproxima o espectador dessa abordagem é o uso de assuntos próximos a qualquer pessoa: uma paixão proibida, a busca pelo assassino de um filho, um triângulo amoroso, a relação entre classes sociais. Losey já adaptou a ópera Don Giovanni e filmou a guerra, mas esses temas maiores que a vida não são regra em sua carreira.

A Sombra da Forca ()

A Sombra da Forca (1957)

Pegue-se O Cúmplice das Sombras, de 1951, por exemplo – com roteiro de Dalton Trumbo, mais um banido pelo macarthismo. Um noir clássico, no qual um policial decide matar o marido da mulher por quem se apaixonou para poder viver com a amada. Ela, no entanto, acredita que o crime tenha sido em legítima defesa. O que começa como simples filme de gênero se transforma em trama familiar violenta e desconfortável. Ressonância do mal-estar que pairava sobre a civilização, já contaminada pela paranoia da Guerra Fria. A Sombra da Forca (1957) vai pelos mesmos caminhos, com um inocente sendo condenado à morte. As sombras carregadas da fotografia denotam a opressão de se viver num mundo sem justiça.

Em Estranho Acidente (1967), o alvo volta a ser a família como instituição sagrada. Dirk Bogarde faz o papel de um respeitável professor de Oxford (casado, com a esposa grávida) que deseja uma jovem aluna vinda de outro país. Falar mais seria estragar, pois aqui a trama também se aprofunda de forma inesperada – basta saber que cinco pessoas se envolvem em uma relação onde o amor já foi substituído pelo ódio e indiferença há tempos. Esteticamente, a essa altura da carreira, o diretor já estava próximo de um jeito europeu vanguardista de se filmar, tanto pelos ângulos de câmera acentuados como pela montagem descompassada.

Losey merece ser mais (re)conhecido pelo público. Poucos são os diretores que oferecem filmes perturbadores com aparência de cinema convencional.

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