O Abutre (2014), de Dan Gilroy

nightcrawler

O fator mais impressionante de O Abutre é a forma como atualiza os temas de um clássico do cinema, Taxi Driver. Se no filme de Martin Scorsese o protagonista busca salvar sua metrópole da escória que a habita, mesmo que faça isso por vias tortas, o longa de Dan Gilroy mostra um homem apenas interessado em se alimentar da esquizofrenia da cidade grande. Sinal dos tempos.

Gosto quando filmes entram na vida de personagens sem muita explicação sobre quem são. No começo de O Abutre, sabemos que Louis Bloom, vivido por Jake Gyllenhaal, é um ladrãozinho que rouba cercas, ferramentas e relógios. Seu passado não interessa, já que ele olha somente para o futuro: ser importante, reconhecido. Para conseguir isso, começa a trabalhar como nightcrawler, aqueles cinegrafistas em busca de acidentes com o intuito de vender as imagens para telejornais sensacionalistas.

É de se estranhar a ausência do ator na atual temporada de prêmios da indústria do cinema. Atuação de uma vida. Ele cria um homem encantador, sempre com os olhos esbugalhados, sorriso no rosto e cabelo penteado pra trás a tagarelar sobre o comprometimento no trabalho e outras baboseiras pseudo-empreendedoras. Seus sonhos de grandeza e ética profissional jamais se explicam, apenas estão lá, como forças motrizes de uma vida regida por uma moral própria – exatamente como Travis Bickle em Taxi Driver. Mesmo tratando de um assunto árido, O Abutre consegue ter momentos de leveza graças a um humor negro bizarro, oriundo da incapacidade social do protagonista.

Gilroy faz um belo trabalho de direção em seu primeiro filme, principalmente no sentido de imprimir tensão às sequências de ação – a perseguição policial perto do fim é emblemática nesse sentido. Com inteligência, intercala as aventuras de Bloom pelas noites de Los Angeles com imagens panorâmicas da própria cidade. A grandiosidade dos prédios, a placidez das colinas, a intensidade das luzes pairam como fantasmas sobre as pessoas. Engolem tudo, incluindo a decência e a humanidade delas. Parece que os nightcrawlers só podem existir em lugares como esses, famintos por vidas, sejam anônimas ou de celebridades.

E, então, aparecem as grandes questões levantadas pelo filme: esse jornalismo sanguinário existe por causa de uma demanda ou a demanda é criada para comportar esse jornalismo sanguinário? A força da mídia em indicar tendências não deve jamais ser subestimada. Afinal, audiência gera retorno financeiro e mostrar o que as pessoas acham que querem ver é o segredo da televisão. O roteiro, escrito por Gilroy, pode até mostrar o extremo do sensacionalismo, incluindo a ocultação de provas de crimes ou alterar a posição de vítimas de acidentes para se obter uma tomada mais dramática. Mas os veículos de comunicação não fazem isso, em menor ou maior grau? Escolher determinado assunto para estampar capas e chamadas já significa recortar a realidade na busca pela atenção do leitor/espectador.

Em L.A., Bloom é apenas mais um a ganhar a vida violentando outras pessoas.

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