A infância como ela é

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Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), de Abbas Kiarostami

Um dos momentos mais ricos da vida é a infância. No entanto, ser criança só parece fácil. Claro que existe a facilidade de não possuir grandes responsabilidades, mas o choque entre a inocência e a aspereza do mundo sempre está lá para confundir a cabeça. Vendo O Garoto da Bicicleta, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, me recordei de vários momentos especiais nos quais o cinema conseguiu captar, de forma séria, o espírito errante infantil. Criança não é burra ou alienada, como bem provam Truffaut e Kiarostami, por exemplo.

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A imagem nossa de cada dia

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Tive a sorte de assistir a Close-Up, de Abbas Kiarostami, no mesmo período em que lia A Sangue Frio, clássico do jornalismo literário escrito por Truman Capote. Parecia improvável que essas obras fossem semelhantes, porque vindas de lugares e culturas tão diferentes. Mas, sim, tratam do mesmo tema: a importância da autoimagem e de como queremos que o mundo nos enxergue.

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A novela de ontem e a novela de hoje

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Como principal produto da televisão brasileira, a novela deveria ser mais bem cuidada por quem as cria – emissoras, escritores, diretores. Não digo isso por apreciar e defender a dramaturgia nacional para TV. A reciclagem de temas, recontando o já contado inúmeras vezes, beira o inacreditável. Do texto, não se tira quase nada: desenvolve mal temas amplos e relevantes para a sociedade; foca em tramas que não fazem a narrativa andar; abusa do uso do clichê e da linguagem formal; retrata um país fictício, sem pobres, feios e derrotados. Se ao menos o desastre dos roteiros fosse compensado com uma forma inteligente de se filmar, estariam todos desculpados. Mas não temos nem isso…

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A cinefilia está morta. Vida longa à cinefilia!

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Revirando alguns livros sobre cinema, encontro Cinefilia (Cosac Naify, São Paulo, 2010), do historiador e crítico francês Antoine de Baecque, e automaticamente me lembro do encontro com o autor em São Paulo, lá em 2011, e do artigo escrito para o Cinefilia. A pauta é antiga, mas o tema abordado, atemporal. Por isso, reproduzo o texto, a seguir. Continuar lendo

Killer Joe mostra um novo Friedkin. Eu quero o velho Friedkin!

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Killer Joe, o aguardado retorno de William Friedkin às filmagens após um hiato de cinco anos, colheu elogios da crítica pelo mundo – chegou a ser indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2011. Estreou no Brasil no mês passado e quem viu deve ter chegado à mesma conclusão que eu: esse, definitivamente, não é um “filme do Friedkin”. Claro, seria injustiça esperar uma obra-prima como as feitas por ele na década de 1970 e começo de 1980. Mas, o tom de Killer Joe jamais esteve presente em suas outras obras, esse pastiche de humor negro com violência brutal e inesperada. Continuar lendo

O prazer de assistir a um filme na segunda fileira do cinema

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Tirando o fato de que cinema não é restaurante ou fast food, tampouco sala de bate-papo, não existe um manual para se assistir filmes onde eles devem ser vistos – no cinema, claro. Uns tiram os sapatos, outros estiram-se nas cadeiras.

Com a tática moderna de se escolher poltronas no momento da compra do bilhete, criou-se, no entanto, um pensamento comum a boa parte do público: o melhor lugar disponível é aquele mais ou menos no centro da sala, nem tão próximo, mas não distante da tela. Continuar lendo