A imagem nossa de cada dia

closeup

Tive a sorte de assistir a Close-Up, de Abbas Kiarostami, no mesmo período em que lia A Sangue Frio, clássico do jornalismo literário escrito por Truman Capote. Parecia improvável que essas obras fossem semelhantes, porque vindas de lugares e culturas tão diferentes. Mas, sim, tratam do mesmo tema: a importância da autoimagem e de como queremos que o mundo nos enxergue.

O romance de não-ficção de Capote narra o massacre de quatro membros da pacata família Clutter por dois criminosos pés-rapados. A chacina não é o principal – interessa mais o que está no entorno: a reação dos moradores da pequena cidade de Holcomb, no meio-oeste americano, a investigação policial, a vida dos assassinos. Reza a lenda que, enquanto apurava as informações, Capote se envolveu amorosamente com um deles, Perry Edward Smith.

Essa é uma informação relevante, pois, segundo historiadores e jornalistas, o autor alterou alguns fatos reais, mexendo aqui e ali para criar mais impacto em sua narrativa. A polêmica permanece até hoje. Será que o retrato humano dos assassinos, principalmente de Smith, surgiu para deixar o livro mais comercial – ou por conta do desejo de proteger um amante? Verdade ou mentira, ninguém nunca deve saber. Talvez Capote apenas queria mostrar o que existe dentro de uma mente capaz de matar uma família inteira, sem qualquer motivação. O próprio Smith, ao longo do contato com o escritor, revela a vontade de não ser retratado como um monstro sem alma. Afinal, por mais cruel que seu crime tenha sido, ainda existe ali um homem, uma história, até mesmo uma ética. O mal e o bem juntos, fundidos, em meio a um mundo nem totalmente branco, nem totalmente preto.

Close-Up segue a mesma toada, embora com uma trama menos grave. Kiarostami leu certa vez em um jornal de seu país, o Irã, a história de um homem comum, chamado Hossein Sabzian, que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf para enganar e tomar dinheiro de uma família de posses. Isso, ao menos, era a versão da família, que processou o farsante. Kiarostami, então, faz um filme a partir desse enredo bizarro. No início, as próprias pessoas envolvidas reencenam os fatos que levaram o caso ao tribunal – isso, por si só, já traz muita subjetividade à obra, afinal, quem garante que tudo ocorreu como mostrado?

A seguir, tem-se um documentário padrão: Kiarostami monta a câmera ao lado de Sabzian durante o julgamento. Ali, o réu revela não ser um criminoso, mas, sim, apenas um homem pobre e apaixonado por cinema. Ele somente aproveitou uma chance para escapar momentaneamente de sua vida, fingindo ser alguém famoso e adorado, sem medir as consequências. No fim, o real e a ficção se chocam quando Makhmalbaf, aquele reconhecido pela sociedade, encontra seu duplo invisível, lembrado apenas quando se torna outra pessoa e infringe a lei.

Graças à inteligência de Capote e Kiarostami, a hipotética mistura de realidade e mentira ganha força como espelho do mundo contemporâneo. Isso é nossa vida, formada por versões diferentes de um mesmo fato, lapsos de memória, aquilo tudo que nos faz ser falíveis, contraditórios, enfim, humanos.

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