A mutação do cinema de David Cronenberg

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Mapas Para as Estrelas (2014)

Mapas Para as Estrelas, trabalho mais recente de David Cronenberg, estreou há poucas semanas no Brasil. E, assim como em Cosmópolis, de 2012, me peguei esperando ver algo que remetesse ao passado do diretor, aqueles filmes pesados de horror gráfico. Quando saí da sessão, a ficha caiu: aquele cineasta não existe mais. Assim como o homem sofria mutações em suas obras dos anos 1980 e 90, a filmografia do canadense também se metamorfoseou a partir da virada do século.

Cronenberg sempre foi mestre em filmar a destruição da carne; membros e órgãos sendo rasgados para gerar algo novo. Nesse sentido, tem muita semelhança temática com outro mestre, John Carpenter. Para ambos, o homem perdeu aquilo que o faz ser humano. Carpenter, contudo, se preocupava mais com a questão do indivíduo, a identidade de cada um. O objetivo de Cronenberg era outro: entender como a ciência e a tecnologia interferiam na vida das pessoas.

Por isso, a obsessão em mostrar o corpo alterado de sua forma original. Em Calafrios (1975), um parasita criado em laboratório infecta os moradores de um condomínio fechado, transformando-os em zumbis sexuais – o filme anteviu a paranoia da década seguinte em relação ao sexo, surgida a partir da proliferação da Aids. Scanners (1981) e A Hora da Zona Morta (1983) têm pessoas comuns, com poderes psíquicos, que não se encaixam mais no mundo. Videodrome (também de 1983) mostra a televisão como meio de controle mental. Em A Mosca (1986), um cientista brilhante funde suas células às de um inseto enquanto estuda teletransporte – uma cutucada na arrogância de parte da comunidade científica interessada somente em fama. Até mesmo os dois médicos idênticos de Gêmeos – Mórbida Semelhante (1988) possuem algo de “não natural”, vide a baixa probabilidade de uma mulher dar à luz filhos univitelinos.

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Calafrios (1975)

Na década de 1990, Cronenberg aprofunda essas ideias com os dois melhores longas da carreira. Crash – Estranhos Prazeres (1996) vai ao limite da questão homem-máquina: personagens que tratam como fetiche sexual o ato de sofrer acidentes automobilísticos. Para eles, não existe prazer enquanto o aço das latarias não se misturar à carne – em outras palavras, não existe evolução sem destruição. Já eXistenZ (1999) fala claramente sobre a internet. Essa mola propulsora do mundo moderno borrou as barreiras entre realidade e ficção. A imagem, a versão, passa a ser mais importante que o fato. Um filme desse em plena virada do milênio é mais significativo do que parece.

A partir de Spider – Desafie Sua Mente (2002), a obra do canadense toma um novo rumo, baseado em histórias mais contidas e maior rigor formal nas imagens. Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007) seguem essa toada, com protagonistas que ainda tentam buscar a verdade em meio a vidas de mentira. Em Cosmópolis, nem essa integridade existe mais: vale mesmo é a ilusão, a ilusão do status, da bolsa de valores – afinal, é um filme sobre a interminável crise econômica mundial.

Chegamos então ao recente Mapas Para as Estrelas. Como bem disse Inácio Araújo em sua análise, “existe uma nova humanidade, destituída de corpos, feita exclusivamente de reflexos“. A transformação, portanto, acabou. Nossos corpos já eram; somos agora conceitos, ideias, produtos a serem consumidos. Nada melhor do que um enredo sobre as entranhas de Hollywood e seus astros mundialmente famosos, porém apáticos de alma, para retratar esse novo estado de coisas. Mapas não é perfeito: a inquietante sátira do início se transforma em excesso de simbolismo na metade final, diluindo os dramas dos personagens. Mas a mensagem está lá, forte o bastante para impressionar.

Seu cinema mudou, mas a visão de mundo de Cronenberg continua implacável.

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A Mosca (1986)

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Gêmeos – Mórbida Semelhante (1988)

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eXistenZ (1999)

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Cosmópolis (2012)

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5 comentários em “A mutação do cinema de David Cronenberg

  1. Alguns criticaram “Mapa para as Estrelas”, mas eu achei uma metáfora bem construída, com uma atuação monstruosa de Julianne Moore.

  2. Marcelo disse:

    Tenho muitas saudades dessa fase grotesca dele. Apesar das suas críticas nos últimos filmes serem bem construídas, os filmes me soam certinhos demais.

  3. […] Mapas Para as Estrelas Thiago Borges, A Noite Americana […]

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