O Mensageiro do Diabo (1955), de Charles Laughton

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Já que no último texto comentei sobre filmes que tratam a infância como ela realmente é – um período rico, complexo e difícil da vida -, decidi permanecer no tema ao lembrar de um clássico esquecido. O ator inglês Charles Laughton  já era consagrado quando, sem experiência alguma em direção, fez uma das mais sombrias fábulas infantis do cinema: O Mensageiro do Diabo.

Antes de tudo, vale ressaltar que a obra é diferente das citadas no outro post. É americana, lançada em 1955, teve final refeito para agradar o estúdio. Algo bem distante da realidade de Truffaut, Kiarostami ou dos irmãos Dardenne. Mesmo assim, é essencial. Não apenas por ser uma alegoria insana sobre os valores da infância (a importância da família, o medo do desconhecido), mas pelos méritos artísticos alcançados por Laughton e cia.

Basicamente um pesadelo filmado (pesadelo de verdade, daqueles nos quais não se consegue fugir de um perigo nem mesmo correndo), o roteiro coloca um sádico assassino de viúvas no encalço de dois pequenos irmãos. Essa dicotomia entre bem e mal se transforma em uma experiência sensorial bastante rica. É como se o longa fosse feito sob o ponto de vista das crianças.

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Com isso em mente, fica mais fácil entender a direção de arte que bebe do Expressionismo alemão, com cenários em tamanhos desproporcionais, e a fotografia inundada por sombras, com imagens formadas a partir de ângulos e linhas retas – Stanley Cortez, fotógrafo de gente do calibre de Fritz Lang e Samuel Fuller, é o responsável por criar a atmosfera onírica do filme. O medo vivido pelos personagens infantis se reflete no mundo que os rodeia.

O assassino é o reverendo Harry Powell, fácil uma das criações mais bizarras do cinema. Culpa da atuação de Robert Mitchum, cuja presença emana sensualidade e perversidade. Como se fosse um campo magnético, tudo gravita ao seu redor. Ele solta pérolas do humor negro (“Não se importe com os assassinatos que cometo, Senhor, seu livro está cheio deles”) ao mesmo tempo em que mata sem remorso. Picareta, psicopata, canastrão: difícil definir o personagem com poucas palavras.

Tão logo foi lançado, O Mensageiro do Diabo caiu em desgraça, assim como a promissora carreira de Laughton como diretor. A década de 1950 não era o melhor período para se contar uma história amoral dessas. Mas muita gente não olhou para o outro lado: graças a algumas de suas inovações técnicas e narrativas, o filme antecipou em alguns anos escolas rebeldes de cinema (Nouvelle Vague francesa, Nova Hollywood). Hoje, pelo bem de todos, O Mensageiro do Diabo é um símbolo cult da Sétima Arte. O tempo se encarregou de mostrar a todos que, de maldita, essa obra não tem nada.

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4 comentários em “O Mensageiro do Diabo (1955), de Charles Laughton

  1. MItchum, um dos melhores canastrôes do cinema americano. Mais um belo texto Thiago!

  2. Eu particularmente acho esse filme fantástico, todas as mensagens subliminares, toda a forma segura da direção de Laughton – excepcional filme.

    Movies Eldridge
    http://movieseldridge.blogspot.com.br/

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