Qual o segredo de Bergman?

As histórias narradas pelos filmes de Ingmar Bergman, na maioria das vezes, são reduzidas ao mínimo. Em menos de uma linha, torna-se possível resumir várias de suas tramas: a disputa entre pai e filho pelo amor de uma cantora de cabaré; a viagem de um velho professor para receber um prêmio honorário; a vingança de um pai após o estupro e o subseqüente assassinato da filha; a enfermeira que cuida de famosa atriz em uma praia deserta; a mulher moribunda em uma casa amparada pelas irmãs.

Respectivamente, aí estão as histórias de Um Barco Para a Índia, Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela, Persona e Gritos e Sussurros. Grosso modo, não acontece nada de muito diferente em cada uma delas. Então, mesmo não muito complexos na estrutura narrativa, por que, afinal, seus filmes são tão cultuados?

Porque fala, de forma profunda, sobre a vida nos seus mais variados aspectos. Pode parecer auto-ajuda barata, mas viver é duro, sempre foi. Além de família, trabalho, comida, segurança, tudo piora quando, inevitavelmente, cedo ou tarde na vida, temos que nos preocupar com questões sem respostas: qual a finalidade de tudo que está ao nosso redor? Para que existimos? De qual lugar viemos, para onde vamos?

Mais questões brotam: quem já se perguntou o porquê da existência humana ser baseada, principalmente, na desgraça? Quem nunca questionou a existência de Deus? Quem jamais se preocupou com a chegada da velhice, com a mudança, para pior, dos hábitos das novas gerações? Quem tem medo da solidão? Quem é obrigado a mutilar a própria personalidade, as próprias convicções, para se encaixar no mundo?

O segredo talvez seja esse: abordando tudo isso, Bergman fala sobre homens comuns, falíveis, com suas dúvidas, medos, esperanças; fala de mim, de você, de todos nós diretamente a mim, a você, a todos nós. Há de se ver cineasta mais universal do que Ingmar Bergman.

OBS: a mostra sobre o diretor que ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo dá a tamanha dimensão da grandeza de seu trabalho. Luiz Zanin o considera um dos maiores artistas do século passado, do porte de Picasso, Stravinski e Miles Davis. Não há muita brecha para discordar.

Na capital paulista, a mostra vai até 15 de julho, partindo depois para o CCBB Brasília. Veja informações no site mostraingmarbergman.com.br

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