Quando morre um rei (O Rei de Nova York, 1990, de Abel Ferrara)

Como filme de gênero – no caso, o subgênero gângster -, O Rei de Nova York já é maravilhoso. Quando se pecebe, então, a espessa camada de comentário social presente em cada passeio da câmera pelas ruas da megalópole do título, em cada diálogo entre policiais e criminosos, torna-se obra-prima.

O Rei de Nova York faz sessão dupla perfeita com Taxi Driver. Ambos tratam do quanto, no século 20, uma cidade pode se afundar na miséria (física e moral), na sujeira, na violência. Ambos também usam antológicos protagonistas – Frank White (Christopher Walken) no primeiro e Travis Bickle (Robert De Niro) no segundo – como modelos do homem contemporâneo, perdido em sua solidão e loucura em meio a um mundo caótico. Não sigo com a comparação entre as duas obras, pois não é o objetivo deste texto.

Abel Ferrara tem a perfeita noção de como sequências independentes estão intimamente ligadas. Parece óbvio, mas não é: toda cena aqui parece ser feita para culminar naquela imagem final, corajosa como poucas já filmadas. O personagem de Walken está baleado, em um táxi. Policiais surgem de todos os locais possíveis. Os oficiais vagarosamente cercam o carro, pois sabem o perigo de enfrentar o principal chefão do tráfico de drogas nova-iorquino. Frank sabe que chegou o fim e empunha sua arma. O tempo é esticado ao máximo, a tensão toma conta do espectador. O que acontece? Nada. A cabeça dele tomba para trás e sua mão cai falecida. Sobem os créditos.

Quem tem colhões para filmar isso? Ouso dizer que pouquíssimos diretores – em Onde os Fracos Não Têm Vez, os irmãos Coen fazem algo parecido ao não mostrar o que acontece com um de seus principais personagens. Mas o final antí-climático de Ferrara traduz tudo o que foi visto na uma hora e meia anterior. Em uma metrópole entupida de cocaína, de mendigos, drogados e criminosos, onde a lei não funciona e a polícia é desacreditada, a morte de Francis não tem significado algum. Nenhuma mudança ocorrerá, pois o “rei” morto é apenas mais um. Outros “reis” estão por aí, aguardando o momento de agir – ou simplesmente já agindo. E assim a cidade grande segue seu caminho, engolindo a todos e a tudo.

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Um comentário em “Quando morre um rei (O Rei de Nova York, 1990, de Abel Ferrara)

  1. Lucas Maciel disse:

    Excelente crítica, Ferrara é o cara!

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