Fúria Sanguinária (1949), de Raoul Walsh

Alguns filmes são, sim, imortais. Passam-se anos, décadas, mas a sua força narrativa de ganha qualquer tipo de espectador, a qualquer tempo. Fúria Sanguinária, clássico absoluto dos chamados “filmes de gângster”, entra facilmente nessa lista. Raoul Walsh mostra que o cinema pode ser conciso, claro e poderoso ao mesmo tempo.

O lendário diretor, assistente de D.W.Griffith ao longo da década de 1910, claramente foi influenciado pelo “pai” do cinema americano. Para este, a montagem exerce função primordial na construção da narrativa fílmica. Walsh, como bom discípulo, resume a teoria na sensacional sequência de abertura de Fúria Sanguinária, onde a gangue de Cody Jarrett, vivido por um James Cagney épico, assalta um trem carregado com dinheiro do Departamento do Tesouro americano. Sem diálogos expositivos, a cena necessita de apenas meia dúzia de falas para criar a tensão e o suspense necessários – e isso graças à imagem.

Baseado em argumento de Virginia Kellogg, o roteiro de Ivan Goff e Ben Roberts deveria ser estudado por jovens interessados em escrever para cinema. Não existem frases nem mesmo planos descartáveis: cada cena dura o exato tempo para atingir o espectador; e todas, por menores que sejam, conduzem a história sempre à frente. A força da trajetória de Jarrett nos alerta para o fato de que, sem montagem e decupagem bem feitas, não existe bom filme.

Seria criminoso, claro, não citar o elenco como parte fundamental da construção dramática do longa. Edmond O’Brien (como o policial Hank Fallon), Virginia Mayo (vivendo a esposa de Cody, Verna Jarrett), Margaret Wycherly (a mãe do protagonista) estão em grande forma, todos ótimos coadjuvantes para o verdadeiro dono do filme. James Cagney – em momento realmente iluminado – entrega uma interpretação grandiosa como o gângster violento, amoral, pronto a explodir – e a matar – a qualquer momento, mergulhado em uma relação quase edipiana com sua mãe e apresentando claros problemas psicológicos.

Cody, contudo, não é unicamente um pária, uma pessoa doente inserida em um mundo são. Muito pelo contrário. Em Fúria Sanguinária, toda a sociedade está doente. A mentira parece ser a única maneira de se relacionar com o próximo. Todos possuem um segredo podre para guardar. O criminoso então, nesse cenário desolador de relações, torna-se apenas mais um fruto desse mundo sujo e cruel.

Sequências devastadoras emocionalmente – como aquela em que Cody recebe a notícia da morte de um importante personagem –, seguem-se a grandes momentos de suspense, culminando em um final impossível de ser descrito por palavras, juntando perversidade e poesia na mesma proporção. Fúria Sanguinária é a síntese da força – brutal, quase sísmica – do classicismo hollywodiano.

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3 comentários em “Fúria Sanguinária (1949), de Raoul Walsh

  1. Rafael Amaral disse:

    Walsh é um mestre, e O Último Refúgio é um filme que não canso de ver. Abraços, ótimo post.

  2. Alexandre Figueiredo disse:

    Grande filme. Filmes assim hoje em dia não se faz mais.

  3. José Remi Rodrigues Reis disse:

    Fúria sanguinária é o ápice das interpretações de James Cagney. Inesquecível!!

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