Ainda existe paixão pela Sétima Arte?

Lendo o livro Cinefilia, do historiador e crítico francês Antoine De Baecque (autor que visitou o Brasil recentemente para uma série de eventos de divulgação da obra), a pergunta do título deste post vem à tona quase que instanteneamente. Vale uma análise do porquê da questão.

De Baecque apresenta em sua obra um grande panorama da crítica francesa do período entre o imediato pós-Segunda Guerra Mundial e o fim dos anos 60, décadas estas em que a análise do cinema ganhou importância social, quando defender um filme era afirmar uma posição política, uma posição ideológica, uma visão de mundo. Periódicos como Cahiers du Cinéma, Positif, Les Lettres Françaises, Revue du Cinéma, não nos deixaram como legado apenas grandes críticos/pensadores – André Bazin, Georges Sadoul, a geração dos “jovens turcos” (Eric Rohmer, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e Jacques Rivette), que mais tarde se transformaria também em realizadora de filmes, Bernard Dort, Luc Moullet. Acima de tudo, a importância desse momento é o estabelecimento do “pensar cinema”, reconhecendo-o como a arte definitiva do século 20 e inventando uma forma de ver e compreender o mundo através do que ocorre na tela grande.

A ida ao cinema deixou de ser por simples entretenimento: algo maior esperava o público, algo que falava, independente do tema, diretamente ao coração. Os franceses institucionalizaram o conceito de que um filme não possui fim em si mesmo, mas sim no espectador; quem o assiste, carrega-o consigo. E era por meio da crítica que se instigava o debate e a discussão dessas obras tão amadas e adoradas: enquanto Truffaut desancava o cinema francês de então, ao mesmo tempo em que defendia arduamente Alfred Hitchcock como autor maior, o comunista Sadoul denunciava a estética fascista dos filmes de Samuel Fuller e Rohmer acreditava que deveria correr “sangue ocidental branco” nos filmes produzidos pelos Estados Unidos e Europa.

Além de defesas apaixonadas dos objetos em análise – seja do cinema americano, soviético ou francês, por exemplo -, são vários os casos notórios de ataques virulentos não apenas a certos filmes ou diretores, mas aos críticos que os defendiam, transcendendo a simples questão estética para se transformar em algo mais profundo, quase pessoal. Se em algumas vezes, esses atritos lembravam birras de meninos em idade escolar – “o meu é melhor do que o seu” -, transparece, em todas, um sentimento genuíno de encantamento com a arte. Cinema era paixão platônica, primeiro amor, religião.

E hoje? O que é cinema, se não um grande mercado, mais uma forma de se ganhar milhões ou bilhões de dólares? Tanto por parte da crítica como do público, parece não existir mais a vontade de assistir um filme pelo filme em si, por tudo o que ele pode nos trazer de bom, fazendo-nos crescer como pessoas e como sociedade. Cinema deixou de ser arte para se tornar um evento: o gênero, o ator, a franquia que está em voga é o que move a indústria. O “amor” pelos filmes, atualmente, limita-se a um amor por uma marca, seja ela um Harry Potter ou um personagem de quadrinhos.

Os grandes ensinamentos daqueles franceses, aos poucos, tornam-se cada vez mais opacos. Falta uma crítica combativa, que faz escolhas baseadas em princípios morais e vai com elas até o fim. Pois, com o passar dos anos, a pasteurização do entretenimento em produtos de entendimento fácil e consumo rápido – e nisso, o cinema não está sozinho, juntando-se à literatura e à música – fazem o culto à cultura, necessária para a evolução do pensamento, cair em desuso. Será que, daqui a algumas décadas, veremos jovens se emocionando com a grandeza do cinema, discutindo se Hawks foi maior que Ford?

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3 comentários em “Ainda existe paixão pela Sétima Arte?

  1. Tema complicado champeis … já que essa questão da paixão da setima arte também vem acarretada com a formação de quem assiste … assim como você que consegue ter uma visão mais nobre e mais rica do cinema, pode ser possível sentir em filmes ditos como simples ou de orgasmos visuais ou de arte. Acho que o último que consegue ser essa concepção textual de arte pela arte foi The Fall de Tarsem …

    Mas te digo … existir ainda existe … mas o fundamental é que nós, os cinefilos que realmente amam cinema ter essa capacidade de validar ou não.

    Abraços.

  2. Rafael Amaral disse:

    A Pauline Kael descreve algo interessante – e que me fez lembrar ao ver seu texto. Na ocasião do lançamento de “O Exorcista”, ela afirmava que as pessoas viam o filme não pelo olhar apaixonado, mas simplesmente para ver o vômito verde de Linda Blair. O filme, como se sabe, tornou-se um evento, cujas intenções estavam longe do amor pela arte do cinema. O livro Cinefilia traz outros tempos e deixa certa tristeza: ainda existe amor como aquele? Abraços http://saudadesdobomcinema.wordpress.com/

  3. Bárbara Calache disse:

    A discussão que De Baecque colocou em pauta quando veio a São Paulo realmente abre para reflexões. Concordo com o João de que essa paixão também depende da interpretação e formação do receptor e sabemos que, além disso, as produções atuais praticamente conspiram para uma admiração além do cinema em si, como a marca, a bilheteria, o ator etc.
    Em uma época em que o amor pelo cinema – e pelo filme por si só – é escasso, admiro sua iniciativa em abordar o tema.
    Beijo.

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