Tempestade Sobre Washington (1962), de Otto Preminger

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“Esta é Washington D.C., cidade da mentira. Os outros sabem que você está mentindo, e também sabem que você sabe que eles sabem”. A frase do protagonista de Tempestade Sobre Washington, o senador indicado a Secretário de Estado americano vivido por Henry Fonda, resume o espírito dessa obra-prima política. Otto Preminger fez um retrato ao mesmo tempo sisudo, sarcástico e desencantado sobre a vida pública dos Estados Unidos – mas com um quê de universal, afinal, política é política em qualquer lugar do mundo.

A adaptação do romance Advise & Consent, de Allen Drury, é projeto pessoal do diretor: comprou os direitos do livro em 1959 e três anos mais tarde produziu e dirigiu o longa homônimo. O roteirista Wendell Mayes teve o cuidado de retirar da história o ranço conservador da obra original. Com isso, não permitiu que a ideologia de nenhum dos partidos americanos dominantes (Democrata e Republicano) fosse favorecida em tela.

A indicação do personagem de Fonda para o cargo é o estopim de um infindável jogo de interesses dentro do governo. Ele tem um passado comunista? O assunto é delicado: trata diretamente das relações exteriores americanas em meio à Guerra Fria. O “fazer política” fica à margem. Relevante mesmo é a vaidade, os interesses pessoais, a busca para provar quem tem mais poder.

No filme (ou na realidade também?), o Senado se assemelha mais a uma igreja, onde se busca o maior número de seguidores – com direito a oração no início dos trabalhos e discursos de caráter doutrinador. A personagem de Gene Tierney comenta a certa altura que “a maioria dos senadores é de esquerda, porém a divisão de seus lugares é puramente geográfica”. Em tom de piada, define a fragmentação dos valores políticos cada vez mais acentuada ao longo do século 20. E esse tipo de diálogo cortante está presente o tempo todo. Tempestade Sobre Washington é sátira em tom agudo, madura como poucas.

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Preminger faz a radiografia das mais importantes instituições da sociedade em diversos momentos de sua filmografia – o sistema judiciário em Anatomia de um Crime (1959), a formação de um Estado em Exodus (1960), a Igreja Católica em O Cardeal (1963). O que o torna um cineasta essencial, no entanto, é a forma como usa a câmera. Ela é um organismo vivo dentro da narrativa e não se limita a captar a ação: a câmera faz a ação. Seus movimentos desconcertantes não existem apenas como apuro estético, são ferramenta para extrair a verdade das imagens, dos personagens, do mundo. O diretor não chega a ser o maior virtuose da técnica cinematográfica. Mas é gênio na construção dos elementos de cena, a mise en scène. Falo mais sobre isso aqui.

É claro que com um elenco menos capacitado, toda a técnica e o roteiro preciso seriam insuficientes. As atuações monstruosas de Henry Fonda, Walter Pidgeon, Don Murray, Peter Lawford e cia. resultam em vida palpável saindo da tela. E ainda temos Charles Laughton, uma das maiores lendas do cinema britânico, em seu último trabalho na carreira. Ele faz o papel de um velho senador, sedutor e assustador, daqueles que se perpetuam no poder pelos mais sombrios motivos. Como diz uma mensagem no início do filme, toda semelhança com a realidade é mera coincidência.

A surreal ironia que encerra o filme, digna das obras políticas de Luis Buñuel, atesta a importância de Tempestade Sobre Washington não só para o cinema americano, mas para toda a sociedade. Se simplesmente olharmos conformados para a realidade do mundo, sem questioná-la, cutucá-la, nada de diferente, que mude o status quo, irá acontecer.

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