Expresso Para Berlim (1948), de Jacques Tourneur

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Existe algo mais aterrorizante do que uma guerra de proporções mundiais, onde dezenas de milhões de pessoas perderam a vida de forma bárbara? Em Expresso Para Berlim, Jacques Tourneur cria um noir expressionista sem fugir de seu gênero preferido, o terror. Afinal, apesar da amarrada trama de mistério e intriga, o filme versa mesmo sobre o horror das consequências da Segunda Guerra Mundial e seus efeitos no mundo.

O roteiro de Harold Medford, baseado em argumento do lendário escritor Curt Siodmak, antecipa em anos o estilo usado por John le Carré e Graham Greene para escrever histórias de espionagem. Um evento diplomático durante o pós-guerra guia a história: o atentado contra o Dr. Heinrich Bernhardt (Paul Lukas), alemão que lutou na resistência contra o nazismo e se tornou importante ativista para a reunificação de seu país, em pleno trem que o levava de Paris a Berlim para uma reunião com representantes das zonas de ocupação militar que então administram a Alemanha, formadas pelos governos dos Estados Unidos, França, Inglaterra e União Soviética. O trem, ironicamente, reúne um microcosmo dessa instável situação política germânica: viajam também um americano (Robert Ryan), um francês (Charles Korvin), um inglês (Robert Coote) e um oficial do exército soviético (Roman Toporow), além de outros personagens misteriosos.

A obra está, o tempo todo, mergulhada em uma atmosfera lúgubre criada pelo contraste entre luz e sombra da fotografia de Lucien Ballard. Na verdade, o filme é mais sombra do que luz, demonstrando o quão amargos foram os anos seguintes ao fim do conflito em uma Europa devastada econômica e emocionalmente. Entre tentativas de assassinato, sequestros, disfarces e trocas de identidades, a impostada voz da narração em off entende o que se passa: os europeus não perderam apenas as casas e bens materiais, mas também a dignidade. Ver as imagens reais de Frankfurt, onde a ação se desenrola durante a maior parte do longa, totalmente em ruínas, tal qual uma cidade fantasma, dá a devida proporção desse colapso social.

Tourneur bebe da fonte dos expressionistas alemães não apenas no uso extremo do claro-escuro, mas também na movimentação da câmera e no posicionamento dos elementos em cena. Não fosse a trama intrincada, Expresso Para Berlim se passaria por filme mudo, dada a semelhança das inventivas soluções visuais utilizadas com o trabalho de Fritz Lang e Murnau – Lang, aliás, é homenageado em uma cena de suicídio, que remete ao clímax de seu Almas Perversas. Em um único travelling lateral, por exemplo, todos os protagonistas da história são apresentados ao público. Outro momento de total controle do diretor sobre a imagem é aquele em que os espectadores, antes mesmo dos personagens, testemunham uma tentativa de assassinato através de uma janela aberta.

Embora tenso ao longo de toda sua projeção, Expresso Para Berlim termina com uma mensagem positiva: a esperança de que o mundo, pode sim, dar um grande passo rumo a tempos pacíficos. Essa sensação é um tanto dúbia, contudo. Todo o otimismo da sequência final não impede que cada personagem vá para seu lado, que cada nação volte para si mesma. Haverá entendimento após tanta dor e desencontro, ainda mais quando todos têm algo a esconder e a defender? A Guerra Fria, e inúmeros outros conflitos nas décadas seguintes, nos dão a resposta.

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