A construção de um gênero: terror (Drácula, 1931)

lugosi

O cinema é uma arte constituída pela imagem. Somente a partir dela, a força dramática e poética de um filme existe – o diálogo, a palavra, é complemento, nunca o contrário. Entre os diversos gêneros cinematográficos, talvez o que mais dependa da imagem seja o terror: graças à manipulação entre o filmado e o ocultado pela câmera, o medo aflora no público – o som se faz essencial para essa função, mas de nada adianta sem ter algo interessante a se mostrar. O terror feito hoje, e o dos últimos oitenta anos, tem como base Drácula, de 1931, dirigido por Tod Browning, obra mais influente do que aparenta.

Alguns clássicos do Expressionismo Alemão, como O Gabinete do Doutor Caligari (1920), de Robert Wiene, e Nosferatu (1922), de Friedrich Murnau, já utilizavam uma estética sombria e angustiante para contar histórias fantásticas. Em 1925, a Universal aplica essas ideias em Hollywood – O Fantasma da Ópera se torna sucesso absoluto de bilheteria e transforma o ator Lon Chanley em astro. No entanto, somente com Drácula se pode perceber o nascimento de uma linguagem própria para o terror. Saem de cena as implicações psicológicas dos alemães e entra uma forma mais direta de interação com o público, baseada no uso de ícones assustadores e repugnantes do imaginário popular: monstros, criaturas controladas por forças desconhecidas, castelos no alto de colinas, escadarias, teias de aranha, morcegos, uivos de lobos.

Pela primeira vez, um personagem seduz e, ao mesmo tempo, oferece perigo iminente à plateia. Multidões correram aos cinemas não apenas para ver a atuação magnética do húngaro Bela Lugosi, a imagem definitiva do Conde Drácula, mas também para sentir medo. E isso só foi possível já que Drácula é a típica obra na qual o conceito do cinema se autoafirma, afinal, a imagem é o mais importante. Híbrido de filme mudo e falado, permanece como criador de praticamente todas as convenções do gênero.

Claro, concessões devem ser feitas para assisti-lo. Sua narrativa se torna arrastada na segunda metade, o final apressado decepciona e não há muito para o espectador contemporâneo se assustar. Mesmo assim, a construção imagética de um mito moderno (o vampiro) é recompensadora.

Curioso saber que o filme não adapta diretamente o clássico da literatura escrito pelo irlandês Bram Stoker no século 19, mas, sim, uma peça homônima encenada na Broadway ao longo da década de 1920 – os produtores alteraram aqui e ali o enredo para não pagar direitos autorais; tempos lúdicos e mais simples que os atuais. Bela Lugosi interpretava o protagonista, o dono de um castelo na Transilvânia, Romênia, que viaja para a Inglaterra em busca de novas vítimas para satisfazer seu apetite por sangue humano, e repetiu o papel no longa-metragem.

1931 era ainda um momento de transição entre o cinema mudo e o falado. Em Drácula, várias são as sequências nas quais o diretor Tod Browning dispensa o uso de diálogos – até mesmo os elementos em cena, a mise en scène, e a posição de câmera dessas tomadas, mais abertas, refletem a influência do mudo. O principal exemplo é a primeira aparição do protagonista. A câmera passeia pelo porão de um castelo, enquanto se vê aranhas, ratos e outros animais bizarros andando pelo ambiente sujo e decrépito. Alguns caixões são mostrados e uma mão começa a sair de um deles. Então, um corte brusco mostra Conde Drácula – com olhos arregalados e expressão impassível. A câmera vai na direção deste ser hipnótico, empurrando o espectador contra ele. Isso tudo sem som algum.

A participação do cinegrafista alemão Karl Freund foi decisiva no visual gótico-opressor de Drácula. Mestre da fotografia e parceiro de realizadores como Murnau e Fritz Lang, Freund ofereceu um toque expressionista ao filme, carregando-o de contrastes claro-escuro. Aliadas à bela direção de arte estão a inventividade nos movimentos de câmera, enquadramentos e a escolha por não mostrar a violência, apenas sugeri-la, deixando ao espectador a tarefa de imaginar o ocorrido. Se a história que conta eventualmente se torna tediosa, tecnicamente o filme está longe de ser monótono.

E temos ainda Bela Lugosi. Sua interpretação, ajudada pelo forte sotaque do leste europeu, exala mistério e apelo sexual. Mulheres desmaiavam e homens se sentiam incomodados ao verem-no na tela grande. Vem dele a clássica imagem do vampiro – seres nobres, cultos e sem sentimento, que gostam de brincar com a sanidade das pessoas que o cercam –, arruinada pela literatura barata do século 21. De qualquer forma, seus gestos largos e expressões exageradas ainda fascinam.

Drácula é o documento histórico de um gênero em nascimento. Poucos filmes foram tão copiados e reencenados ao longo das décadas.

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2 comentários em “A construção de um gênero: terror (Drácula, 1931)

  1. João Luis Pinheiro disse:

    Texto brilhante como sempre Thiago!

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