Mês do Imperador – Akira Kurosawa: Céu e Inferno (1963)

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Os filmes policiais de Kurosawa não se atêm somente às características do gênero do qual fazem parte: observam o mundo para radiografar a sociedade moderna e sua crise de valores como poucos. Os diagnósticos dessas análises, mesmo ligados ao modo de vida nipônico, são universais, como Céu e Inferno tão bem mostra.

Se o trabalho de direção do Imperador já impressiona em qualquer obra, aqui se torna fundamental: é a câmera que cria o ritmo adequado para cada momento. Se todo o primeiro terço do filme possui, praticamente, apenas planos gerais, onde os vários personagens em cena tentam entender os fatos ocorridos, o desenrolar da trama permite movimentos rápidos, enquadramentos sufocantes e uma sequência que beira o surreal durante o terceiro ato, na qual as imagens parecem flutuar em meio à miséria humana.

Céu e Inferno começa como um comentário sobre as relações predatórias do capitalismo e termina em uma poderosa análise social da divisão de classes. Toshirô Mifune vive Kingo Gondo, empresário do setor de calçados femininos. Ele pretende assumir o controle acionário da companhia em que trabalha, mas encontra rejeição por parte de outros gerentes durante uma reunião em sua residência. Minutos depois do encontro, uma ligação anônima o informa do sequestro do filho. Outro telefonema, no entanto, leva a situação a uma direção completamente inesperada.

Kurosawa sempre esteve à frente de seu tempo: nada é mais atual que a sensação de insegurança no próprio lar e a questão do muro social — invisível, mas sentido por todos — que separa ricos dos pobres. A mansão de Gondo dá o recado: sozinha em uma colina, ergue-se soberana perante a vizinhança composta por cortiços, riachos e vielas. O céu está para os ricos, assim como o inferno é dos pobres.

A questão da segurança pública, então, encontra resposta na falta de oportunidades a uns em contraste ao excesso de outros? Ou a delinquência surge da maldade intrínseca a cada um de nós (como pode ser visto em Rashomon) e não de um problema sociológico mais grave? O preto e branco sujo, com uma espécie de névoa sobre a imagem, criado pelos fotógrafos Asakazu Nakai e Takao Saitô se transforma no único modo de dar vida a um mundo que acredita ser estável e duradouro, mas está falido há tempos.

Para formular tais questões com firmeza, o filme joga com uma tensão crescente e a total impossibilidade de se prever o fim da história. Com isso, a investigação policial sobre o sequestro se torna imprescíndivel para a narrativa. A longa sequência dentro de uma delegacia, onde os detetives analisam o caso — por sinal, muito semelhante a uma cena de O Vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang —, é aula de exposição de muitas informações com absoluta clareza. Nesses momentos, o roteiro se destaca: artimanhas como revelar a identidade do sequestrador primeiro ao público manipulam o suspense e ajudam na construção de um thriller impecável.

Céu e Inferno está cheio dessas sequências inesquecíveis. Enquanto o filme se encaminha para o final, em meio a surpresas e reviravoltas, o espectador já sabe: que cinema grande faz Kurosawa!

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