Mês do Imperador – Akira Kurosawa: Homem Mau Dorme Bem (1960)

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É impressionante a lucidez encontrada nos roteiros criados por Akira Kurosawa e sua equipe de fiéis colaboradores — Hideo Oguni, Eijirô Hisaita, Ryûzô Kikushima e Shinobu Hashimoto. Seus dramas contemporâneos, os gendai-geki, como são conhecidos no Japão, desconstroem a sensação de invulnerabilidade da sociedade moderna pós-Segunda Guerra Mundial ao abordar, de forma pesada, sem concessões, temas como violência, política, divisão de classes. Homem Mau Dorme Bem faz parte desse grupo. Se não bastasse ser a obra mais bem filmada de Kurosawa, também é, de longe, a mais desesperançosa, uma mistura de noir com filme de horror.

O enredo trata de corrupção e desvio de dinheiro entre governo e uma empresa privada de construção civil — inclui ainda outros tipos de conluios, asassinatos, acobertamento da imprensa. Por ser tão próximo da realidade, torna-se quase documental. E justamente daí vem a sensação de horror, ao nos depararmos com o esgoto moral no qual vivemos. Kurosawa não nos deixa relevar, fingir que não vemos: ele pega nossa cabeça e aponta para o problema — por isso, assusta.

Homem Mau Dorme Bem segue a cartilha da fotografia do noir, com abundância de sombras para cliar um clima sufocante. Salta aos olhos a soberba noção de enquadramento no scope. A tela, mais horizontalizada que o normal, permite uma melhor distribuição dos elementos de cena, evitando que apenas o centro contenha as ações. Isso permite o uso da profundidade de campo, em que tudo fica dentro do foco, desde algum elemento em primeiro plano até o fundo do cenário, criando uma imagem orgânica, viva. Os filmes de Kurosawa não têm apenas temas interessantes: são absurdamente bonitos e simbólicos do ponto de vista imagético — o simples close de uma porta fechada, por exemplo, diz muito sobre a relação de um casal.

Além da beleza visual, o espectador também pode se deliciar com as complexas tramas, as mudanças de trajetória dos acontecimentos e as revelações surpreendentes desses longas. A impossibilidade de se prever o que virá a seguir leva a narrativa sempre à frente, puxando o público consigo e o obrigando a participar ativamente da construção da história.

Aqui, cabe uma citação ao ator de primeira grandeza chamado Toshirô Mifune. Quase invisível em todo o primeiro terço do longa, seu personagem cresce ao mesmo tempo em que é desvendado o mistério desse homem. A partir daí, como sempre, Mifune toma posse da tela. Como bem disse o ator norte-americano Alec Baldwin em entrevista à distribuidora americana Criterion Collection, Mifune reúne a presença física de Marlon Brando, a força bruta de Edward G. Robinson e a elegância de Gregory Peck em uma única pessoa.

Diretores como David Cronenberg e Roman Polanski, ainda que esteticamente não tenham qualquer semelhança estética com Kurosawa, seguem um dos grandes legados do mestre japonês: não se pode olhar o mundo com ternura se o que vemos ao nosso redor não tem nada de terno; o pessimismo, usado com sabedoria, permite-nos fugir do conforto da alienação.

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