Mês do Imperador – Akira Kurosawa: Cão Danado (1949)

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Em Cão Danado, de 1949, Kurosawa anteviu aspectos tão caros ao mundo atual: o embrutecimento da sociedade, a glamourização do crime e a banalização da violência sem sentido. Antes mesmo de se tornar conhecido mundialmente — o que aconteceria um ano depois, com Rashomon —, o cineasta já possuía um estilo de filmar completamente consolidado.

A obra de Kurosawa segue um modelo coerente, encontrado na maioria de seus filmes, de narrar acontecimentos triviais que logo se transformam em uma análise maior, um olhar macro sobre diversos aspectos essenciais da vida. Cão Danado não é diferente: o detetive Murakami, um novato da seção de Homícidios da polícia de Tóquio, vivido por Toshirô Mifune, tem sua pistola roubada enquanto voltava de ônibus para casa após um dia de trabalho. A partir daí, desenvolve-se a busca febril do detetive pela arma, ao mesmo tempo em que ele e seu parceiro Sato (Takashi Shimura) vagam por uma cidade que sofre uma crise de valores, ainda abalada pelas graves consequências da derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial.

Kurosawa e Ryûzô Kikushima escrevem o roteiro como um folhetim policial, apresentando informações de forma objetiva e em grande velocidade — os cinco primeiros minutos de projeção apresentam toda a trama. Gradualmente, a narrativa se torna mais lenta e o foco da história muda: o que importa não é mais o roubo ou a identidade do ladrão, mas, sim, os fatos que se sucedem ao crime.

Aqui, temos um diálogo interessante com A Última Gargalhada, de Friedrich Murnau. No clássico alemão, um velho porteiro de hotel se vê remanejado para uma tarefa ingrata, a limpeza de banheiros. Assim, não pode mais usar seu suntuoso uniforme, deixando de ser reconhecido pelos vizinhos e cumprimentado nas ruas. A mesma situação ocorre com o protagonista de Cão Danado: sua pistola não é apenas um pedaço de metal moldado; sem ela, perde um símbolo de autoridade e, por consequência, sua elevada posição social. Murakami apenas se esqueça de algo: seu revólver não tem importância alguma em um estado falido, fisica e moralmente, como esse Japão pós-guerra, local onde cortiços amontoam pobres, jovens consomem drogas e criminosos ganham a simpatia de pessoas comuns.

A procura dos detetives, então, não serve para nada. Os dois sabem que enfrentam algo muito maior. O combate a um reles ladrão está na superfície de um mundo sem esperanças, de aparências e pistas falsas — o calor absurdo enfrentado pelos personagens ao longo de todo o filme se transforma no aspecto palpável desse mal-estar na civilização. O detetive Sato é proverbial ao dizer: “Dê uma olhada pela janela do mundo. Haverá todos os tipos de casos debaixo desses telhados hoje. E algumas pessoas boas cairão vítimas de alguém como ele. Esqueça-o. Assim que seu braço sarar, estará ocupado novamente”.

Kurosawa faz em Cão Danado um filme noir ainda mais pessimista e dark que o usual nesse subgênero. Aos 39 anos de idade, já parecia um veterano na arte de filmar, basta conferir o trabalho preciso de mise en scène, a disposição dos elementos em cena, e os rápidos movimentos de câmera em direção aos atores, uma de suas marcas registradas. Dá pra imaginar a surpresa de todo o planeta ao se deparar com um artista tão jovem, talentoso e engajado em sua visão de mundo.

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