Killer Joe mostra um novo Friedkin. Eu quero o velho Friedkin!

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Killer Joe, o aguardado retorno de William Friedkin às filmagens após um hiato de cinco anos, colheu elogios da crítica pelo mundo – chegou a ser indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2011. Estreou no Brasil no mês passado e quem viu deve ter chegado à mesma conclusão que eu: esse, definitivamente, não é um “filme do Friedkin”. Claro, seria injustiça esperar uma obra-prima como as feitas por ele na década de 1970 e começo de 1980. Mas, o tom de Killer Joe jamais esteve presente em suas outras obras, esse pastiche de humor negro com violência brutal e inesperada.

A história: filho convence pai de matar a mãe divorciada para ficar com o seguro de vida, contrata um assassino de aluguel (o Killer Joe do título, vivido pelo Matthew McConaughey) e, como se poderia imaginar, tudo dá errado. André Barcinski adorou o filme e o definiu de forma precisa: “Fargo interpretado pela famíia de O Massacre da Serra Elétrica“. Fosse feito pelos irmãos Coen em início de carreira, ou até por Guy Ritchie, poderia ser algo interessante – não que Ritchie seja um cineasta competente, veja bem. Com Friedkin, torna-se uma mera curiosidade.

Não é mal feito e tem muita coragem ali – afinal, é o Friedkin -, mas as situações exageradas são mais do mesmo dentro desse gênero já saturado e não combinam com o diretor. Seu cinema é físico e sério, sempre com uma abordagem visivelmente pessimista sobre as relações humanas. Operação França, O Exorcista, Comboio do Medo, Parceiros da Noite e Viver e Morrer em Los Angeles mostram bem o tipo de roteiro que gosta de filmar. Usar humor bizarro e sanguinolência, como visto em  Killer Joe, parece ser uma tentativa desesperada de Friedkin para voltar aos holofotes de Hollywood. Fica para a próxima: ainda aguardo o retorno desse mestre aos bons e velhos filmes.

Digressões

Últimos filmes vistos (cotação de * a *****):

Os Companheiros (I Compagni, Itália, 1963), de Mario Monicelli ****

Monicelli volta ao final do século 19 para falar dos problemas da Itália da década de 1960: a exploração dos operários por parte das grandes indústrias e a dificuldade para se criar um movimento sindical homogêneo. Um filme político até o osso, mas com belos momentos de ternura e humor, marca registrada do velho Mario.

Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, EUA/Itália, 1978), de George A. Romero *****

Um filme de zumbi pode ser uma peça política? Se for do Romero, obviamente sim. A grave crise econômica e de valores da América nos 1970 está inteira aqui: Guerra do Vietnã, consumismo, alienação, racismo. Os mortos-vivos são meros detalhes quando o mundo está mergulhado no caos social.

Divórcio à Italiana (Divorzio all’italiana, Itália, 1961), de Pietro Germi *****

Comentei a atuação de Mastroianni no post anterior, mas o longa inteiro é brilhante – e nesta revisão, mostrou-se ainda melhor. Exemplo finíssimo da comédia italiana, não deve nada aos maiores clássicos do humor, como Levada da Breca ou Quanto Mais Quente Melhor. O roteiro absurdo, no bom sentido do termo, de Ennio De Concini, Alfredo Giannetti e do próprio Germi deveria ser matéria em aulas sobre cinema.

Amor (Amour, Alemanha/França/Austria, 2012), de Michael Haneke ***

Vi críticas comparando a atual fase de Michael Haneke (A Fita Branca e esse Amor) ao trabalho de Ingmar Bergman. O rigor formal pode até ser semelhante, mas Begman é muito mais humanista do que Haneke. Amor mostra de forma fria, e às vezes até arrogante, a deterioração da vida sob os olhos de uma professora de piano (Emmanuelle Riva) que sofre um derrame. Apenas bom – sua fama e prêmios recebidos são inexplicáveis.

Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, Inglaterra/Itália, 1973), de Nicolas Roeg ****

O inglês Nicolas Roeg cria um longa de horror feito de sensações. A história do casal (Donald Sutherland e Julie Christie) que viaja a Veneza para tentar esquecer a morte da filha é mero pretexto para sufocar os personagens nas vielas vazias e sombrias da cidade italiana. O sentimento de que algo estranho acontece – tanto dos protagonistas quanto do público – toma forma em uma sequência final ilógica, surreal, fabuloso.

Intriga Internacional (North by Northwest, EUA, 1959), de Alfred Hitchcock *****

Assisti a esse clássico do Hitchcock há alguns anos e não gostei: achei forçado, caricato. E, hoje, garanto: rever um filme se faz tão importante quanto assisti-lo pela primeira vez. Com a revisão, pude perceber toda a genialidade de Intriga Internacional, certamente o filme com maior noção de espetáculo feito pelo mestre. A conta básica é imbatível: plot clássico de uma obra hitchcokiana (homem confundido com outro) + Cary Grant + inúmeras sequências antológicas (assassinato na sede da ONU, perseguição no milharal, fuga no Monte Rushmore) = diversão pura e inigualável.

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3 comentários em “Killer Joe mostra um novo Friedkin. Eu quero o velho Friedkin!

  1. […] breve comentário sobre o regular Killer Joe, último filme de William Friedkin, no último post, nada mais correto do que analisar a fase áurea desse diretor essencial para o cinema dos anos […]

  2. Admito ter reconhecido em “Killer Joe” o mesmo William Friedkin dos anos 1970 e 1980, mas não há dúvidas de que ele parece experimentar uma nova fase em sua carreira. Acredito que os seus dois filmes mais recentes (“Killer Joe” e “Bug”) tenham provocado essa divisão de opiniões pela parceria com Tracy Letts, um dramaturgo que apresenta um texto às vezes difícil de ser digerido. Gosto muito do filme, é um dos meus favoritos deste primeiro semestre do ano. Referente aos outros filmes comentados, pude assistir “Amour” e “Inverno de Sangue em Veneza”. Concordo com você quanto ao filme de Haneke, mas acho o filme do Roeg superestimado, embora com imagens inegavelmente poderosas.

    • Thiago Borges disse:

      Valeu, Alex!

      Pois é, estranhei um pouco o Killer Joe. Quem sabe em uma revisão não cresça. Quanto ao “Inverno de Sangue em Veneza”, fiquei com uma sensação estranha após vê-lo: não sabia se era genial ou algo comum. Mas essas imagens poderosas me fascinaram, mais do que a história em si – que, na verdade, mal é uma história!

      Abs

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