O prazer de assistir a um filme na segunda fileira do cinema

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Tirando o fato de que cinema não é restaurante ou fast food, tampouco sala de bate-papo, não existe um manual para se assistir filmes onde eles devem ser vistos – no cinema, claro. Uns tiram os sapatos, outros estiram-se nas cadeiras.

Com a tática moderna de se escolher poltronas no momento da compra do bilhete, criou-se, no entanto, um pensamento comum a boa parte do público: o melhor lugar disponível é aquele mais ou menos no centro da sala, nem tão próximo, mas não distante da tela. Existem filmes, porém, que merecem ser conferidos mais de perto, com a imagem escapando à totalidade de nosso campo de visão, permitindo ao filme arrebatar os sentidos do espectador e se transformar em sua própria essência: espetáculo.

Três semanas após sua estreia nacional, O Mestre, obra de Paul Thomas Anderson, mantém-se em apenas duas salas na cidade de São Paulo. Sim: o novo, e elogiado, longa de um dos mais talentosos cineastas da atualidade só pode ser visto, na cidade brasileira mais populosa, em dois locais. Isso nos dá um pequeno e triste lampejo do quão viciada é a questão da distribuição de cópias e da manutenção de filmes em cartaz no Brasil, país no qual lançamentos de grande apelo comercial, como O Hobbit, ocupam quase metade das pouco mais de 2.300 salas existentes por aqui.

Público interessado em O Mestre existe. Afinal, qual outra explicação para, meia hora antes de uma sessão cujo horário era próximo da saída de expediente em plena quinta-feira, restarem exatos onze ingressos na bilheteria – todos nas duas primeiras fileiras?

Fiquei com a cadeira 7 da fila B, não sem antes praguejar contra o cinema, os espectadores etc. Mal começou o filme e percebi que melhor escolha – ainda que casual – era impossível.

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O material filmado por PTA carrega uma dramaticidade pulsante – basta ver Boogie Nights, Magnólia, Sangue Negro ou até mesmo Embriagado de Amor. Em O Mestre, essa força se mostra ainda mais potente, graças à câmera colada nos rostos de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman. Como bem disse Inácio Araújo, se cinema é representação e performance, O Mestre tem muito de cinema.

São esses dois monstros da atuação, entregando nada menos do que o limite de suas capacidades, que fazem o público se sentir pequeno. O embate entre o instinto selvagem e o instinto social do homem  – transformado na história de um indomável (Phoenix) que entra em contato com uma seita religiosa liderada por alguém enquadrado pela sociedade (Hoffman) – é maior do que o próprio filme, do que a própria vida. Ver as imagens etéreas, quase surreais, de PTA da segunda fileira, com a dissonante – e brilhante – trilha sonora de Jonny Greenwood ressoando nos ouvidos, embriaga os sentidos e se transforma em experiência renovadora.

Acredito ser bem válido assistir a um filme no cinema pertinho da tela. Não todos, obviamente. Só tenha cuidado ao escolhê-lo: um Nolan ou um Michael Bay devem dar muita dor de cabeça.

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