Na Mira da Morte (1968), de Peter Bogdanovich

Curioso perceber como pérolas cinematográficas acabam sendo esquecidas ao longo do tempo. A estreia do genial e genioso Peter Bogdanovich é um claro exemplo.  Na Mira da Morte faz profunda análise sobre o caráter mórbido do cinema e sua relação com o mundo real na forma de um intenso thriller de suspense. Um filme tão contundente e perturbador não deveria ser tão pouco conhecido – mas talvez sejam essas próprias qualidades os fatores a relegá-lo a um ostracismo imerecido.

Bogdanovich criou, em parceria com sua então esposa Polly Platt e o diretor Samuel Fuller, um argumento forte, com ressonância completa no espectador. Ao longo dos 90 minutos de projeção, duas histórias distintas são contadas paralelamente, sem pressa, até se encontrarem em um brilhante clímax de horror – funcionando também como ponto de reflexão sobre os elementos discutidos pelo roteiro.

A primeira delas mostra o ator Byron Orlok, vivido por Boris Karloff de maneira quase autobiográfica, decidindo-se pela aposentadoria. Após anos de sucesso interpretando monstros em filmes de terror, começa a ser ignorado pelo público, vendo-se preso a uma estética sem apelo às novas gerações – a sequência inicial, com cenas do filme Terror no Castelo, de Roger Corman, define bem esse modo artesanal, e ultrapassado, de se fazer terror. O que, de certa forma, nem chega a ser culpa do público: com notícias diárias nos jornais sobre crimes e mortes brutais, a fantasia vai assustar a quem? O outro lado da narrativa é sobre a va monótona de Bobby Thompson, homem casado, que mora com os pais.

Bogdanovich – ele interpreta o diretor de cinema Sammy Michaels – paga tributo à Hitchcock na construção do suspense, seja na inclusão de elementos de humor, como quando Orlok e Michaels ficam bêbados, ou no crescendo de tensão e incerteza sobre a natureza do que assistimos. Quando Bobby – aquele homem aparentemente comum, de família boa – explode em um ataque inexplicável de fúria, semelhante aos tantos casos de pessoas matando familiares e companheiros de trabalho a esmo, chegamos ao cerne de Na Mira da Morte: o que nos choca? Por que ficamos chocados com a violência na tela e não com a real? A violência se tornou banal, parte do cotidiano? São perguntas subentendidas ao vermos o personagem, sem qualquer sentimento, atirando em civis.

Não podemos julgar Bobby, pois seus atos não são explicados – o que com certeza influenciaria nossa percepção em relação ao filme; é-nos permitido apenas o choque com sua frieza e loucura. Frente à passividade em relação ao embrutecimento do mundo, Bogdanovich chacoalha o espectador para acordá-lo de um sono torpe imposto pela televisão, pelo consumo, pelas “versões oficiais” das instituições de poder e, até mesmo, pelo cinema enquanto mero produto descartável. O clímax brutal se passa, não gratuitamente, em um cinema, fazendo-nos recordar do importante papel da arte – em sua forma mais pura de desenvolvimento humano – na tarefa de transformar, para melhor, uma realidade.

A loucura e a paranoia poucas vezes foram tão bem dissecadas como em Na Mira da Morte, sem dúvida uma das obras mais importantes do cinema americano nos anos 1960. Só é triste e trágico ver esta ficção se replicar no real quase que diariamente, como bem mostram os massacres ocorridos no Shopping Morumbi, em 1999, na cidade de São Paulo; no Instituto Columbine, no Colorado, EUA, no mesmo ano; e na Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, Rio de Janeiro, em 2011.

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