Quando a mágica acontece na tela: Três Homens em Conflito

Após um longo período sem postagens, nada melhor do que voltar com um filme emblemático, que mostra, em sua totalidade, a força do cinema em criar mitos, universos paralelos onde os espectadores se sentem como crianças diante de algo imenso, que não cabe em nosso campo de visão. Falar que as obras de Sergio Leone são maiores que a vida é chover no molhado, pois nem mesmo a vida é tão épica e prazerosa quanto um longa seu.

Três Homens em Conflito é provavelmente meu filme favorito. Se tivesse que escolher apenas um para rever durante toda a vida, (acho que) seria este: as imagens criadas pelo diretor italiano falam diretamente ao coração, talvez até mesmo ao subconsciente. Queremos ser heróis, queremos aventuras, queremos até mesmo enfrentar a morte e vencê-la – Il buono, il brutto, il cattivo nos oferece tudo isso.

E o momento ápice dessa exaltação do cinema como magia encantadora/celebração do ato de contar histórias acontece em seus quinze minutos finais, a partir do momento em que Tuco, o trambiqueiro vivido por Eli Wallach, encontra o cemitério onde está enterrado uma fortuna em ouro. Se o cinema é a junção coerente de imagem e áudio, ritmada por movimentos de câmera e posteriormente pela montagem, então essa sequência, juntamente com o truelo final entre os personagens de Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Wallach, é a definição mais pura de cinema. Impossível não se envolver emocionalmente com o que ocorre na tela, pois já acompanhamos o Bom, o Mau e o Feio por mais de duas horas e meia antes dessas cenas e sabemos o quanto sofreram – independente dos métodos utilizados – para chegarem até ali.

O êxtase do ouro

A chegada de Tuco ao cemitério é um momento sublime, tão carregado de emoção que beira o surreal. Não só a câmera alucinada girando em círculos acompanha o estado de euforia do personagem, mas a música também, em um crescendo que sai de um piano e oboé para explodir em metais e pratos. A peça Ecstasy of Gold (escute a versão original aqui), do mestre Ennio Morricone, figura fácil entre as mais grandiosas já escritas para um filme.

Aqueles que quiserem conferir a cena na íntegra, vejam abaixo. Assim, deslocada do resto da projeção, perde demais o simbolismo e a força. Mas ainda vale cada segundo.

O truelo

Obviamente os outros dois também encontram o local. Tudo se decide, então, em um truelo. Não um comum, obviamente. Editado de forma soberba, fica nítido o controle absoluto de Leone com o material filmado. Mãos, coldres, olhares: tudo é mostrado em planos fechados, de forma lenta. Pouco a pouco, esses planos se tornam menores, mais rápidos, até a tensão se tornar insuportável – e enfim as armas serem disparadas. Tudo isso ao som desta gema – Tarantino a pegou emprestada para Kill Bill, mas, acredite, o uso original supera de longe.

Três Homens em Conflito, muito além da homenagem ao western, reverencia a própria arte da qual faz parte.

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