Zazie no Metrô (1960), de Louis Malle

A tomada de abertura de Zazie no Metrô (Zazie Dans Le Métro, França, 1960) é praticamente idêntica à de A Besta Humana, clássico de Jean Renoir de 1938: um trem em movimento passa por casas, campos, pontes, mostrando toda a força da máquina e o poder tecnológico alcançado pela sociedade no último século. Mas a semelhança para por aí: enquanto no filme de Renoir, adaptação do romance naturalista homônimo de Émile Zola, vemos um estudo sombrio dos instintos do Homem, Louis Malle oferece uma comédia de costumes filmada sob o ponto de vista de uma criança e, o mais nonsense de tudo, com a mesma estética narrativa de desenhos animados.

Não deixa de ser curioso, no entanto, um trabalho tão vivo, lúdico, ter sido feito por Louis Malle, autor de filmes duros, críticos em relação às convenções e à hipocrisia burguesas, que abordam questões tabu como pedofilia, incesto, suicídio e feminismo. Talvez isso tenha explicação: mesmo com toda a aparente beleza e fragilidade de Zazie, o cineasta faz uma grande sátira das idiossincrasias de uma cidade grande e dos costumes franceses. Assim, a homenagem a um dos grandes filmes franceses da História é apenas uma das tantas brincadeiras com símbolos da cultura mundial: citações que vão de Cidadão Kane a Nietzsche, passando por A Doce Vida (lançado também em 1960) e pelos poetas Baudelaire e Rimbaud – antecipando em quatro décadas o caldeirão de referências filmado por Quentin Tarantino.

Escrito pelo próprio Malle em parceria com Jean-Paul Rappeneau, o roteiro adapta o romance homônimo de Raymond Queneau com a mesma dinâmica e frescor encontrados no livro. Zazie (Catherine Demongeot) visita Paris para passar o fim de semana com o tio Gabriel (Philippe Noiret). Mas ela não é uma menina qualquer: desbocada, independente, feminista, fala palavrões, não respeita os adultos e tem sempre uma resposta na ponta da língua – isso tudo do alto de seus 12 anos.

À primeira vista, as imagens amalucadas que se seguem por toda a projeção podem não fazer sentido algum. O grande segredo, porém, é perceber que a história se conta através do olhar da garota. O mundo, em toda sua complexidade, portanto,  constrói-se pelo entendimento de uma criança, que ainda não sabe o que é ser “gente grande”, mas faz o possível para entender as mudanças pelas quais passará ao longo da vida. Esse conceito só torna ainda mais hilário as observações ácidas do cotidiano francês: Paris transforma-se em uma cidade em desequilíbrio, com trânsito insuportável – e aqui a ironia é finíssima: enquanto a capital cultural do mundo, entupida de turistas, apresenta inúmeros pontos turísticos renomados, Zazie quer apenas conhecer o metrô; vizinhos fofocam e confabulam sobre a vida alheia; casais apaixonados, embriagados pela beleza romântica parisiense, comportam-se como idiotas quando juntos; homens respeitáveis escondem suas verdadeiras ocupações – o tio de Zazie, por exemplo, trabalha como dançarino em um cabaré.

E o que faz essa salada funcionar é justamente os inúmeros artifícios usados na montagem. Malle, o editor Kenout Peltier e o fotógrafo Henri Raichi voltaram às raízes do cinema, usando trucagens e sobreposições dignas da cartilha de Georges Méliès e seu cinema fantástico. Quase um desenho animado em live action – graças aos objetos que desaparecem de repente; carros que trafegam em cima de outros carros; pessoas que pulam de grandes alturas e caem em pé –, Zazie possui um tom de inocência que acompanha todo o filme. Assim, a caricatura do “ser francês” se transforma em algo terno, carinhoso. Apesar de ver todo o exagero de sua sociedade – e de não gostar disso –, Malle sabe rir de seus estereótipos.

Ao final de sua aventura na cidade grande, a mãe de Zazie pergunta à filha o que fez durante o fim de semana. “Cresci”, responde a garota. Em uma palavra, ela resume não apenas sua jornada de autoconhecimento, ainda que às avessas, mas também todas as possibilidades que Louis Malle e equipe oferecem ao cinema ao filmar de modo tão anárquico, surreal e apaixonante.

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